Histologia | Tecido Epitelial

outubro 11, 2019

A formação de tecidos está diretamente associada ao surgimento da multicelularidade, o que representa um grande sucesso evolutivo, tendo em vista que a existência dos tecidos contribui para uma divisão de trabalho, otimizando assim, as funções fisiológicas do organismo.

No caso do tecido epitelial, podemos observar uma grande diversidade de funções. Dentre elas, destaca-se a função de revestimento, a mais conhecida de todas. O epitélio de revestimento está presente em vários órgãos, desempenhando uma função protetora. Contudo, alguns epitélios podem realizar outras funções como, por exemplo: absorção e secreção, também denominada como função glandular.

A função de revestimento pode ser facilmente observada no maior órgão do corpo, a pele. Contudo, essa função também pode ser vista no epitélio das vias do sistema respiratório e digestório, desempenhando a função de limpeza e absorção, respectivamente.


Figura 1 - Estrutura básica da pele.
(Fonte: Cancer Research UK / Wikimedia Commons).

No que diz respeito à pele, o tecido epitelial está presente nas camadas mais externas, formando a epiderme (Figura 1). A função da epiderme se relaciona com a proteção do organismo, bloqueando a entrada de possíveis patógenos. Contudo, o tecido epitelial também pode revestir estruturas internas, como no caso dos vasos sanguíneos, formando o endotélio. 

Essa capacidade de revestimento só é possível graças à uma característica das células epiteliais, a justaposição. Situação em que as células estão fortemente posicionadas lado a lado, sem deixar espaços entre si, o que explica a pouquíssima ou nenhuma existência de substância intersticial. Em outras palavras, com pouquíssimo líquido extracelular entre os tecidos. O tecido epitelial também é conhecido por ser avascular, ou seja, não possui vasos sanguíneos.

Os tecidos epiteliais são classificados de acordo com o formato e a quantidade de camadas que as células formam. No primeiro caso, as células podem ser classificadas em cúbicas, prismáticas, pavimentosas e de transição. As células cúbicas e prismáticas são assim denominadas por possuírem um formato de cubo e de coluna/cilíndrico, respectivamente. As pavimentosas (escamosas) possuem forma achatada, enquanto as de transição possuem a capacidade de alterar a sua forma. Isso ocorre com as células epiteliais da bexiga que possuem formato cúbico quando o órgão está vazio e pavimentosa quando cheio.

No que se refere à quantidade de camadas (Figura 2), o tecido epitelial pode ser classificado em simples ou uniestratificado,, quando possui apenas uma camada de células, estratificado, quando possui várias camadas de células e, finalmente, o pseudoestratificado, quando possui uma camada de células com tamanhos distintos, o que passa a impressão de existirem várias camadas. A utilização das duas classificações permite a identificação de diversos tecidos epiteliais distribuídos pelo corpo.


Figura 2 - Classificação do tecido epitelial.

O epitélio simples pavimentoso pode ser observado nos pulmões, órgãos responsáveis pelas trocas gasosas que promoverão a oxigenação do sangue. O epitélio simples cúbico é encontrado nos ovários e túbulos renais. O simples cilíndrico está presente no epitélio do estômago. O estratificado pavimentoso é observado no esôfago. O estratificado cúbico pode ser encontrado nas glândulas exócrinas, como a sudorípara. O estratificado de transição pode ser visto na bexiga e nas vias urinárias e, finalmente, o epitélio pseudoestratificado, presente nas mucosas nasais.

Retornando às funções epiteliais, daremos destaque à função de secretora, capacidade associada às glândulas presentes no organismo. Essas glândulas podem ser classificadas como endócrinas, exócrinas e anfícrinas. As glândulas endócrinas são conhecidas por liberarem suas secreções na corrente sanguínea. As glândulas exócrinas, por sua vez, são caracterizadas pela capacidade de eliminar suas secreções para fora do corpo ou em uma cavidade do mesmo. As glândulas anfícrinas, finalmente, são glândulas que possuem uma porção endócrina e outra exócrina na sua estruturação, o que explica a sua denominação como glândulas mistas. 


Figura 3 - Formação de glândulas endócrinas e exócrinas.

As glândulas surgem como consequência da multiplicação de células epiteliais. Essa multiplicação forma um aglomerado para o interior dos tecidos. As células que migraram para o interior, ficam abaixo da camada do tecido epitelial, dando origem às glândulas exócrinas e às endócrinas. Algumas glândulas não interiorizam, permanecendo na superfície do epitélio, como é o caso das caliciformes e das intraepiteliais (Figura 3).

Nas glândulas exócrinas, haverá a formação de um canal de comunicação com o meio externo, o canal secretor, enquanto nas endócrinas, não há formação desse canal e, por isso, a liberação de suas secreções fica limitada à via sanguínea.

As glândulas exócrinas podem ser classificadas de acordo com o seu formato em: tubulares, acinosas e túbulo-acinosas (Figura 4). As glândulas tubulares possuem formato alongado, assemelhando-se à um tubo. As acinosas ou alveolares possuem extremidades arredondadas. As túbulo-acinosas ou túbulo-alveolares combinam as duas características, uma longa estrutura tubular com extremidade arredondada. Existe, ainda, a classificação quanto ao ducto secretor ou canal secretor, podendo este ser simples ou composto, o segundo caso, caracteriza-se pela presença de um canal com ramificações.


Compound Tubulo-Acinar Gland.png
Figura 4 - Morfologia de glândulas exócrinas.

Algumas classificações se baseiam nas secreções glandulares como, por exemplo, as glândulas mucosas, conhecidas por liberarem secreções ricas em mucopolissacarídeos. As glândulas serosas, responsáveis por produzir secreções ricas em proteínas e, finalmente, as mucosserosas, que liberam secreções mistas. 

Como exemplo de glândula mucosa, podemos citar as glândulas caliciformes, localizadas entre as células epiteliais do intestino delgado e sendo responsáveis pela produção de um muco lubrificantes intestinal. Nas serosas podemos citar as glândulas intestinais e estomacais, pois produzem enzimas digestivas. Nas mucosserosas temos as glândulas submandibulares, com secreções caracterizadas pela liberação de fluídos com grande quantidade de enzimas e muco.


As glândulas exócrinas podem, ainda, ser classificadas como holócrinas, merócrinas e apócrinas (Figura 5). As glândulas holócrinas se destacam por liberar o conteúdo citoplasmático juntamente com as suas secreções, o que causa a sua morte. As glândulas merócrinas eliminam apenas a sua secreção, não perdem o citoplasma. As glândulas apócrinas perdem parte do conteúdo citoplasmático durante a eliminação de suas secreções. Contudo, regeneram a parte perdida.

These three diagrams show the three modes of secretion. All three diagrams show three orange cells in a line with attached to a basement membrane. Each cell has a large nucleus in its lower half. The upper half of each cell contains a Golgi apparatus, which appears like an upside down jellyfish. Yellow secretory vesicles are budding from the top end of the Golgi apparatus. Each vesicle contains several orange circles, which are the secreted substance. In merocrine secretion, the secretory vesicles travel to the top edge of the cells and release the secretion from the cell by melding with the cell membrane. In apocrine secretion, the top third of the cell, which contains the secretory vesicles, pinches in at the sides and then completely disconnects above the Golgi complex. The pinched off portion of the cell is the secretion, as it contains the majority of the secretory vesicles. In holocrine secretion, the upper third of the cell, just above the Golgi complex, forms many finger like projections. Each projection contains several vesicles. The tips of the projections that contain secretory vesicles bud off from the cell. In this method of secretion, the mature cell eventually dies and becomes the secretory product.

Figura 5 - Tipos de secreção glandular.

Nas glândulas endócrinas, como dito anteriormente, não há um ducto secretor e, por isso, eliminam suas secreções (os hormônios) diretamente na corrente sanguínea. Como exemplo de glândulas endócrinas podemos citar a hipófise, a tireóide e as adrenais. A hipófise, por exemplo, secreta os hormônios FSH (Folículo Estimulante) e LH (Luteinizante) na corrente sanguínea. Esses hormônios participam diretamente da regulação do ciclo menstrual feminino.

Nas glândulas anfícrinas (mistas), temos uma situação em que as glândulas possuem uma função endócrina e exócrinas, ao mesmo tempo. Como exemplo dessa situação, podemos citar o pâncreas, os testículos e os ovários. Os testículos, por exemplo, produzem uma secreção que eliminada para fora do corpo durante a ejaculação, o esperma. Essa eliminação corresponde à secreção da porção exócrina da glândula. Contudo, os testículos também secretam na corrente sanguínea o hormônio testosterona, caracterizando assim, a existência de sua porção endócrina.

O tecido epitelial pode assumir formas especiais para desempenhar funções específicas. Isso pode ser observado na presença de microvilosidades do epitélio intestinal e nas junções celulares como: os desmossomos e hemidesmossomos, zonas de oclusão e adesão, junções tipo gap, entre outras (Figuras 6 e 7).

As microvilosidades correspondem à dobramentos da membrana plasmática com a finalidade de aumentar a capacidade de absorção dos nutrientes. Os desmossomos possuem função de adesão entre células justapostas. Essa adesão só é possível graças à presença de proteínas de membrana específicas, as placoglobinas e desmoplaquinas (em forma de placas), além da presença de proteínas filamentosas que as mantém unidas, as desmogleínas e desmocolinas. As regiões internas das placas desmossômicas, àquelas voltadas para o citoplasma, estão fortemente unidas à queratina do citoesqueleto.

File:Cell junctions.png

Figura 6 - Junções do tipo gap e desmossomo.

As zonas de adesão estão localizadas na porção superior das células epiteliais, sendo mantidas por um cinturão de proteínas contráteis actina e miosina localizadas no lado interno da membrana. No espaço entre membranas, a partir do cinturão, partem proteínas filamentosas denominadas de caderinas. Dada a contratilidade das proteína actina e miosina, as contrações do cinturão afetam diretamente a forma da célula.

Logo acima da zona de adesão, existe uma zona de oclusão. Essa zona é formada por uma rede de proteínas ocludinas e claudinas. Essas proteínas unem fortemente células vizinhas, sem deixar espaços entre elas, o que impede a passagem de pequenas moléculas. Desta forma, qualquer substância externa só entrará no organismo passando por dentro das células.


Figura 7 - Junções entre células do tecido epitelial. 

As junções do tipo gap são comunicantes, pois permitem a passagem de substâncias entre células adjacentes. Essa comunicação só é possível graças à presença de proteínas especiais que formam pequenos tubos entre as células, as conexinas.

Os hemidesmossomos são assim designados por lembrarem metade de um desmossomo, ou seja, são formados pelas mesmas proteínas dos desmossomos. Contudo, a adesão promovida pelo desmossomo ocorre entre células. Já nos hemidesmossomos, essa adesão se dá entre a célula e a lâmina basal, uma camada de proteínas localizada logo abaixo do tecido epitelial, servindo como uma espécie de fundação para a fixação das células logo acima.

Todas as estruturas citadas demonstram o quão complexa e intrincada é a dinâmica de funcionamento das células, cada parte sendo essencial para a sobrevivência das mesmas nas suas devidas proporções.

Referências

Hall, John E. Tratado de Fisiologia Médica. 12ª ed. Elsevier: Rio de Janeiro, 2011.

AMABIS, J.M.; MARTHO, G.R. Biologia: biologia dos organismos. 3ª Ed., vol. 1. Moderna: São Paulo, 2009.

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